Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
O outro lado do nosso 11 de Setembro ou como protagonizámos um episódio do "Dr. House"

Ok, se voltássemos atrás dispensávamos esta nota hospitalar nas nossas biografias, mas também houve momentos light. Como as saídas de algumas pessoas com quem nos cruzámos e que eram deste calibre:

- Trabalho aqui há 19 meses e nunca tinha visto uma coisa assim...

Isto quando não faziam excursões até à incubadora da Mini.

- Esta menina é mais intensiva do que alguns meninos que lá tenho. (Com os cumprimentos de uma auxiliar dos cuidados intensivos da pediatria.

 

Mas, atenção, nenhuma destas coisas foi dita para ofender ou preocupar os pais. Saía-lhes.

 

Na segunda semana, quando a Mini começou a dar mostras que ia dar a volta por cima, o ambientes distendeu-se e entrámos na fase "Dr. House". Toda a gente do piso de obstetrícia queria averiguar as razões para o estranho caso da hipertensão pulmonar.

Mãe - Estou cá porque a minha filha está na UCERN (Unidade de Cuidados Especiais a Recém-Nascidos)

Médica - Ai, sim? Que chato (com ar de desinteresse). Então e o que é que ela tem?

Mãe - Hipertensão pulmonar.

Médica - Você é que é a mãe da Madalena?! (súbito e não disfarçado interesse)

Mãe - Sim.

Médica - E tomou Indocid na gravidez?

Pelos vistos esta era a pergunta do milhão de dólares, e toda a gente a fez - da coordenadora do departamento, ao  obstetra, passando pelas enfermeiras e pelos médicos de serviço. E eu que nem nunca na vida tinha ouvido falar de semelhante remédio.

Mas a conversa não se ficava por aqui:

Médica - Tomou outros remédios?
Mãe - Só ben-u-ron.

Médica - É saudável?

Não consegui esclarecer as dúvidas dos médicos, mas percebi - helás - por que razão Gregory House não descansava enquanto não entendia as causas. É lá que reside a solução. Para nós, porém, o caso ficou sem resposta.


No meio daquela confusão toda e por incrível que pareça, gostei das pessoas que conhecemos. As médicas, as enfermeiras, os outros meninos que tinham o nome na incubadora e os pais deles: o Dinis e a mãe, e as gémeas Rita e Marta, que nasceram no dia 1 de Fevereiro com pouco mais de 1 quilo e tinham uns pais muito divertidos. Gostava de os ver agora.



publicado por Lina às 23:40
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Cada pessoa tem o seu 11 de Setembro

Muito lá atrás, em Julho, prometi que não voltaria falar nos atribulados primeiros dias de vida da Madalena. Acontece que está a fazer um ano e chegou a altura de tocar no assunto. A Margarida Rebelo Pinto chamar-lhe-ia catarse. Eu acho que é apenas que cada pessoa tem o seu 11 de Setembro, um momento trágico que muda tudo. E gostava de fazer um relato para a Mini, que, por sorte, não se lembra nem se lembrará desses primeiros tempos (mas com um pouco de sorte compreende quão importantes são os médicos e vai estudar Medicina).

Recuemos então até 1 de Fevereiro de 2008, às 09h00, quando levaram a Mini para tomar a sua primeira banhoca e ser revista pela pediatra. Surpresa!

Afinal aqueles gemidos que nós tínhamos insistido com a minha mãe que eram normais, afinal não eram assim tão normais. E aquele arfar? Meu Deus! E os pulmões a bombarem como se a Madalena tivesse acabado de fazer a meia-maratona? Menos normal ainda.  Diagnóstico: pneumotórax do lado direito para a Mini, cartão amarelo para os pais que não fizeram caso dos gemidos.

Para mim aquilo já estava a ser uma tragédia, mas depois foi piorando, piorando, e  o que começou com uma criança a ser vigiada na incubadora e um dreno, passou para hipertensão pulmonar. "Isso é que nos está a preocupar agora", disse a dra. Olga.

 

Ela subiu de propósito ao quarto 301 para nos dizer isto e eu acho que não entendi bem a extensão do que me queria dizer. Não entendi que fosse pior. Só comecei a acordar para a questão quando no dia seguinte ela nos perguntou:

- Têm seguro, não têm?

Com isso e com o facto de estar uma equipa inteira mobilizada para aquele caso. Ou de só a nossa filha ter o nome escrito na incubadora.

Quando uma pessoa não percebe nada de medicina, só se pode fiar nos sinais que vai recebendo e estes entendi muito bem. Mal sabia o que se ia passar.

Ventilação, a sonda no nariz, o cateter no umbigo, as visitas do cardiologista, os perfusores de remédios empilhados, a morfina, a indometacina, o viagra, a alimentação parentérica, as análises para medir os gases, estar sempre nua (parece uma coisa sem importância, mas foi bastante penoso para nós vê-la assim, como se nem fosse bem pessoa)...

Ao princípio ligava para o hospital às 06h00 da manhã e à 01h00 para saber como ela estava. Depois desisti, tal era o medo do que me pudessem dizer.
Sei que foram apenas 15 dias  e que isso não é nada (quem dera muita gente, não é?), mas naquela altura era impossível não viver aquilo intensamente. 1)Não sabíamos se iam ser só 15 dias; 2) só nos diziam para vivermos "um dia de cada vez". Da primeira e única vez que nos deram notícias positivas, ela só piorou.

E por mais que uma quantidade considerável de pessoas nos dissesse "não se preocupem, vai correr tudo bem, os bebés são mais fortes do que parecem", nós é que a estávamos a ver ali, cada dia mais mirrada - e mirrada é mesmo a palavra. Não fotos da Madalena nesta altura e ainda bem. As fotografias só iam reter imagens que não queremos e assim já nem lembro de todos os detalhes (ainda que, curiosamente, me lembre do cheiro de desinfectante).

Depois de seis dias de agonia, na quinta-feira (uma semana depois de ela ter nascido), às 22h30, o obstetra (que foi acompanhando as nossas dúvidas) ligou-nos a dizer que podíamos acalmar. A Madalena tinha estabilizado. "E se a dra. Graça diz isso é porque podem mesmo descansar, ela é sempre muito cautelosa nas boas notícias". Fomos para o hospital muito mais confiantes (e descansados). E, então, às 23h30, o papá recebeu uma chamada. O pai tinha morrido. Quão cruel pode ser isto?



publicado por Lina às 23:30
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Quinta-feira, 1 de Maio de 2008
A hipertensão pulmonar...
As estatísticas deste blogue revelaram-me uma coisa espantosa: alguém do Brasil veio aqui parar fazendo uma pesquisa por "hipertensão pulmonar". Fico sensibilizada com isso, e triste ao mesmo tempo.

Hipertensão pulmonar foi aquilo que fez com que a chegada da Mini a este mundo fosse tão complexa. Todos os dias (mas todos mesmo) me lembro disso e da sorte que é ela crescer e ainda por cima saudável. Por isso, achei graça que alguém, procurando esse termo, viesse aqui parar. O que me entristece é que haja tão pouca informação sobre isso. De tal forma, que alguém do outro lado do Atlântico, onde vivem tantos milhões de pessoas, venha aqui dar a correr.

E depois fico a pensar (só faço filmes, eu) o que estaria a passar a pessoa que nos visitou e que com tanto interesse passou por vários outros posts. Estará doente? Procura informação? Precisa de ajuda? Terá também um filho pequeno doente? Nunca saberei. Mas se por uma acaso da sorte o visitante voltar, gostava de saber o que o trouxe até este estaminé.


publicado por Lina às 12:22
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