Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Cada pessoa tem o seu 11 de Setembro

Muito lá atrás, em Julho, prometi que não voltaria falar nos atribulados primeiros dias de vida da Madalena. Acontece que está a fazer um ano e chegou a altura de tocar no assunto. A Margarida Rebelo Pinto chamar-lhe-ia catarse. Eu acho que é apenas que cada pessoa tem o seu 11 de Setembro, um momento trágico que muda tudo. E gostava de fazer um relato para a Mini, que, por sorte, não se lembra nem se lembrará desses primeiros tempos (mas com um pouco de sorte compreende quão importantes são os médicos e vai estudar Medicina).

Recuemos então até 1 de Fevereiro de 2008, às 09h00, quando levaram a Mini para tomar a sua primeira banhoca e ser revista pela pediatra. Surpresa!

Afinal aqueles gemidos que nós tínhamos insistido com a minha mãe que eram normais, afinal não eram assim tão normais. E aquele arfar? Meu Deus! E os pulmões a bombarem como se a Madalena tivesse acabado de fazer a meia-maratona? Menos normal ainda.  Diagnóstico: pneumotórax do lado direito para a Mini, cartão amarelo para os pais que não fizeram caso dos gemidos.

Para mim aquilo já estava a ser uma tragédia, mas depois foi piorando, piorando, e  o que começou com uma criança a ser vigiada na incubadora e um dreno, passou para hipertensão pulmonar. "Isso é que nos está a preocupar agora", disse a dra. Olga.

 

Ela subiu de propósito ao quarto 301 para nos dizer isto e eu acho que não entendi bem a extensão do que me queria dizer. Não entendi que fosse pior. Só comecei a acordar para a questão quando no dia seguinte ela nos perguntou:

- Têm seguro, não têm?

Com isso e com o facto de estar uma equipa inteira mobilizada para aquele caso. Ou de só a nossa filha ter o nome escrito na incubadora.

Quando uma pessoa não percebe nada de medicina, só se pode fiar nos sinais que vai recebendo e estes entendi muito bem. Mal sabia o que se ia passar.

Ventilação, a sonda no nariz, o cateter no umbigo, as visitas do cardiologista, os perfusores de remédios empilhados, a morfina, a indometacina, o viagra, a alimentação parentérica, as análises para medir os gases, estar sempre nua (parece uma coisa sem importância, mas foi bastante penoso para nós vê-la assim, como se nem fosse bem pessoa)...

Ao princípio ligava para o hospital às 06h00 da manhã e à 01h00 para saber como ela estava. Depois desisti, tal era o medo do que me pudessem dizer.
Sei que foram apenas 15 dias  e que isso não é nada (quem dera muita gente, não é?), mas naquela altura era impossível não viver aquilo intensamente. 1)Não sabíamos se iam ser só 15 dias; 2) só nos diziam para vivermos "um dia de cada vez". Da primeira e única vez que nos deram notícias positivas, ela só piorou.

E por mais que uma quantidade considerável de pessoas nos dissesse "não se preocupem, vai correr tudo bem, os bebés são mais fortes do que parecem", nós é que a estávamos a ver ali, cada dia mais mirrada - e mirrada é mesmo a palavra. Não fotos da Madalena nesta altura e ainda bem. As fotografias só iam reter imagens que não queremos e assim já nem lembro de todos os detalhes (ainda que, curiosamente, me lembre do cheiro de desinfectante).

Depois de seis dias de agonia, na quinta-feira (uma semana depois de ela ter nascido), às 22h30, o obstetra (que foi acompanhando as nossas dúvidas) ligou-nos a dizer que podíamos acalmar. A Madalena tinha estabilizado. "E se a dra. Graça diz isso é porque podem mesmo descansar, ela é sempre muito cautelosa nas boas notícias". Fomos para o hospital muito mais confiantes (e descansados). E, então, às 23h30, o papá recebeu uma chamada. O pai tinha morrido. Quão cruel pode ser isto?



publicado por Lina às 23:30
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