Parece que foi ontem e já passaram dez anos. A tia Ana conduzia o velhinho Peugeot 107, dois lugares, matrícula JF, Avenida da Liberdade acima, vinda do INP onde eu tinha ido ter, depois da Atalanta e, posso não saber o que comi ontem, mas lembro-me de falarmos da divisão do mundo e de como não havia nada mais ilusório do que os planisférios,que punham Portugal (e Espanha) no centro de tudo. Eu, vê bem, imaginava que o preceito era cada um ter o seu mapa-mundi "a começar" no sítio onde morava. (Porque nessa altura acho que ainda não percebia que há gente sem pátria, sem uma terra de onde ser e que não faz e que não se é menos pessoas por isso.) Mas não é assim. Todos os planisférios do mundo começam na Europa porque houve o Tratado de Tordesilhas e nós mandávamos e pronto. É só política.
- Se fosse hoje não seria nada assim, disse ela.
E não é. Dez anos depois já não é. Não podíamos prever que os planisférios iam deixam de ser em papel e iam passar a estar no computador e que ia haver uma coisa totalmente nova (e radical) - o Google Earth - que ia revolucionar tudo. Quando é que nasceu? 2005, 2006?
A precisão da ferramenta impressiona, claro. É o sextante do século XXI. Mas o que mais me impressionou no dia em que abri "aquilo" pela primeira vez, foi perceber que realmente a Ordem do mundo mudou. Agora começa nos Estados Unidos e até conseguimos ver um bocadinho do oceano Pacífico. Que o Tratado de Tordesilhas é história. Que não é por acaso que a primeira aplicação que a Microsoft quer desenvolvida no seu motor de busca, o Bing, são os mapas.
Portanto, uma pessoa pode ter uma União Europeia, pode "inventar" um presidente do Conselho Europeu, uma ministra dos Negócios Estrangeiros, pode ter um presidente da Comissão Europeia, pode ir a Copenhaga mandar postas de pescada sobre o clima, pode invocar-se a antiguidade, a tradição, mil anos de histórias, de fronteiras. Acabou. O mundo começa em San Francisco, como antes começou em Belém. (E já é uma consolação que o nome da cidade se entenda em português!)
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